Do receio à decisão: empreendedora supera passado familiar e consolida doceria em Tapiraí | ASN São Paulo

No Brasil, abrir uma empresa é apenas o primeiro passo de uma jornada marcada por riscos e incertezas. Dados do Sebrae-SP indicam que uma parcela significativa dos negócios encerra as atividades nos primeiros anos não por falta de clientes, mas por ausência de preparo gerencial. Falhas em precificação, organização financeira e gestão operacional aparecem de forma recorrente entre as principais causas da mortalidade empresarial, lições que muitos empreendedores aprendem apenas após enfrentar prejuízos.
Essa realidade fez parte da história da empreendedora Kerolin Camargo Pupo Marques de Lima, 29 anos, fundadora da Doces Camargo & Café. Sua trajetória é tema do Sebrae Transforma, programa semanal exibido nas redes sociais do Sebrae-SP que apresenta histórias reais de superação, aprendizado e transformação no empreendedorismo paulista. O percurso de Kerolin evidencia como o acesso à capacitação pode representar a diferença entre repetir dificuldades do passado ou construir um negócio sustentável, guiado por planejamento e leitura de mercado.
Dos sabores da infância ao receio de empreender
Antes de pensar em abrir um negócio próprio, Kerolin carregava o peso de uma experiência familiar marcada por frustrações. O pai, Sérgio Aparecido Marques, trabalhou como padeiro e chegou a manter uma padaria na cidade, reconhecida pela qualidade do pão e pela boa aceitação entre os moradores. O movimento era constante, havia clientela fiel, mas a atividade acabou encerrada por problemas de gestão.
“Não foi falta de venda. A gente vendia muito bem, fazia fila”, relembra Kerolin. “O problema foi não saber administrar. Misturava conta da empresa com conta da família, não sabia o que era pró-labore.”
A ausência de organização financeira, planejamento e controle administrativo foi determinante para o fechamento do negócio. A experiência deixou marcas profundas e fez com que Kerolin, apesar da convivência com a produção de alimentos desde a infância, passasse a enxergar o empreendedorismo como algo arriscado e distante.

Naquele período, ela trabalhava no comércio local e não imaginava que sua trajetória profissional mudaria a partir de uma situação corriqueira. Em 2022, durante um dia comum de trabalho, ouviu uma conversa entre o gerente da loja onde atuava e uma agente do Sebrae Aqui, que apresentava as capacitações disponíveis no município.
O diálogo não era direcionado a ela, mas despertou curiosidade. Kerolin se aproximou da agente e perguntou se as capacitações eram voltadas apenas a empresários já estabelecidos ou se também atendiam quem ainda não empreendia, mas queria se preparar.
“Na hora, eu pensei que aquela podia ser a minha chance de aprender”, conta. “Era algo que estava acontecendo na minha cidade. Eu podia continuar trabalhando e me preparar para o futuro.”
A resposta foi objetiva. As atividades também eram abertas a quem ainda não havia dado o primeiro passo no empreendedorismo.
A conversa marcou o início de uma mudança de perspectiva. Pela primeira vez, Kerolin percebeu que era possível se preparar antes de abrir um negócio, sem repetir os erros que havia acompanhado de perto na própria família. Não se tratava apenas de incentivo, mas de acesso a informações práticas que até então pareciam distantes.
“Ali eu entendi que dava para aprender antes de errar”, afirma. “A confeitaria eu já tinha, meu pai sempre foi meu professor. Mas a administração é o coração da empresa.”
A partir daí, passou a participar das capacitações oferecidas pelo Sebrae, organizou os primeiros passos com planejamento e começou a enxergar o empreendedorismo como um processo estruturado, construído com método e análise.
Capacitação como estratégia de crescimento
Ao participar de cursos, palestras e da trilha Empreenda Rápido, Kerolin adquiriu noções sólidas de gestão financeira, precificação, controle de caixa e organização administrativa. Aquilo que havia faltado na experiência familiar tornou-se, desde o início, um diferencial estratégico.
Com mais preparo técnico e segurança para tomar decisões, formalizou a empresa e inaugurou a primeira unidade da Doces Camargo & Café. A proposta unia doceria e cafeteria temática, com cardápios e ambientações renovados mensalmente, inspirados em universos da cultura pop. A originalidade atraiu clientes, gerou engajamento e consolidou a marca no centro de Tapiraí.
“Eu aprendi que não basta gostar do que você faz, precisa planejar”, diz. “Cada tema, cada cardápio, tem custo e tem objetivo. Nada é feito no impulso.”
Com o negócio estruturado, Kerolin passou a observar com mais atenção o comportamento do público e as transformações da cidade. Foi assim que identificou uma mudança gradual no fluxo de clientes. Moradores do Rio Turvo, distrito do município com núcleo urbano próprio, começaram a reduzir a circulação pelo centro.
A razão não estava ligada diretamente ao comércio. Com a desativação da agência lotérica em Tapiraí, muitos moradores de Rio Turvo, especialmente idosos, passaram a se deslocar para cidades vizinhas, como Piedade, para resolver pendências financeiras. O centro perdeu movimento, e a doceria sentiu o impacto.

“De uma hora para outra, eu perdi quase metade dos clientes”, relata. “Achei que era algo da loja, mas resolvi investigar. Quando entendi o que estava acontecendo na cidade, ficou claro que eu precisava ir até onde as pessoas estavam.”
Em vez de recuar, Kerolin tomou uma decisão estratégica. Abriu uma segunda unidade da Doces Camargo & Café em Rio Turvo, não como um plano de expansão tradicional, mas como reposicionamento do negócio diante de uma nova dinâmica urbana.
Hoje, o resultado confirma a leitura de mercado. “Eu costumo dizer que hoje faço, em duas unidades, o que antes eu fazia em uma só”, conta. “Se eu não tivesse entendido o movimento da cidade, talvez tivesse fechado a primeira loja achando que o problema era outro.”
Impacto, continuidade e permanência
Além dos resultados financeiros, a trajetória de Kerolin produziu mudanças concretas no âmbito familiar. Com a consolidação do negócio, ela trouxe os pais para mais perto da rotina da empresa. O pai passou a produzir pães e itens vendidos na própria loja, com autonomia de horários. A mãe, responsável por salgados que se tornaram conhecidos entre os clientes, também deixou o regime CLT. O que antes era instabilidade deu lugar a um trabalho integrado, mais flexível e sustentável.
Hoje, Kerolin administra duas unidades ativas, três pontos de venda na cidade e planeja os próximos passos com cautela. Não fala em crescimento acelerado, mas em continuidade. “Agora eu sei onde estou pisando”, resume.
Em Tapiraí, a doceria temática que muda de identidade a cada mês carrega mais do que criatividade e vitrines coloridas. Carrega uma história construída a partir de aprendizado, observação e decisão. Uma trajetória que começou marcada pelo receio de repetir o passado e que hoje se sustenta naquilo que um dia faltou: preparo para permanecer.